11 de abr de 2010

O Filho do Brasil

Nascido em cidade do interior. Vida humilde. Lutou, venceu o preconceito. Conquistou uma Nação.


Não, não me refiro ao homem que Fábio Barreto levou às telas ao raiar de 2010, o
presidente Lula. Mas sim, ao maior médium que habitou as terras tupiniquins e que agora chega ao cinema nacional.


Chico Xavier
, de Daniel Filho, transcende os
limites de religiosidade, pondo em segundo plano o espiritismo e explorando primordialmente a figura humana do mineiro que ganhou o mundo levando mensagens de amor e caridade. Um homem que na infância sofreu a perda da mãe, maus tratos da madrinha, lutou para sobreviver e conviveu com a descrença. Um filme para todos os públicos, para todos os credos.


O longa tem como pano de fundo o programa Pinga-Fogo, onde o médium era questionado por jornalistas incrédulos que tentavam apontá-lo como fraude, mas as respostas por eles encontradas levavam ainda mais à mitificação daquele homem, e, a partir dele todo o filme se constroi repleto de flashbacks, tendo o ator Matheus Souza interpretando o médium na infância, Ângelo Antônio na juventude e Nelson Xavier na maturidade. Todos em belíssimas atuações, não deixando de lado, é claro, a grande semelhança física entre Chico e Nelson Xavier, agnóstico que mergulhou de corpo e alma no papel.


Outra grande sacada do filme foi mesclar drama e humor. Numa sessão lotada, diante desse encantador longa de fotografia esplêndida, música emocionante e roteiro simples e ao mesmo tempo profundo, é possível sentir a concretude que o silêncio toma nas cenas de drama e rir com todos quase que espalhafatosamente nas cenas cômicas. Cenas que não são meros inventos do roteirista e diretor, o próprio Chico aparece nos créditos finais narrando esses fatos.


O cinema nacional está diante de uma biografia sincera, sem melodrama, humana. Por todos esses ingredientes, por toda riqueza de produção (não apenas artística, mas também orçamentária - um dos filmes mais caros que o país produziu) Daniel Filho bate ele mesmo, antes recordista com Se Eu Fosse Você 2. Chico Xavier levou mais de 600 mil espectadores nos primeiros dias de exibição lotando salas no Brasil inteiro e deixando sem bilhete para as primeiras sessões as pessoas que deixaram para comprar de última hora.


Os números deixam no chão o filho do Brasil de Fábio Barreto, que levou pouco mais de 200 mil espectadores nos primeiros dias de exibição.

O novo filho do Brasil arrasta multidões como Chico fazia em vida, já o filme de Barreto não arrastou as multidões como no sindicato ou comícios. Consequência do filme ou do filho?

SinaldoLuna"

4 de abr de 2010

E na Semana Santa...

Será que eu sou tão velho assim?

A Semana Santa, na minha infância, era, sem dúvida, o período mais sério do ano. Um ar, talvez mórbido pairava sobre todos, era como se durante esse período, a alegria fosse embora. Pouco se podia fazer. Brincadeiras discretas. Peixe,
only!

Se ainda “sofri” com algumas dessas práticas, imagino todos aqueles que tiveram a infância nos anos 70/80. Ali as tradições eram mais rígidas. Além da proibição da carne, que ainda impera, que tal ficar sem tomar banho na quarta, na quinta, sendo liberado apenas na tarde da sexta, caso fosse para a procissão do Senhor Morto? Cortar cabelo? Claro que não! Também nada de limpeza na casa (isso é meio óbvio, se o próprio corpo era deixado às moscas, imaginem a casa e tudo dela...).

Mas eis que existia proibições boas: Não discutir com ninguém, não pegar em arma branca ou de fogo, nada de palavrões, nada de fumar nem beber. Todo sacrifício acabava à meia-noite do Sábado, o Sábado de Aleluia... Passado o risco de ficar “entrevado” na Quarta-Feira das Trevas, passada a Quinta e a Sexta da Paixão, um ar de alegria se aproximava, mas se algo acontecesse...

A mais incrível das crendices da Semana Santa... Ao término da missa na Sexta, logo após a procissão, os padres concentravam-se numa árdua tarefa: encontrar uma gota de sangue em uma página da Bíblia. Isso garantiria a felicidade da população, assegurada de que o mundo não acabaria naquele ano! Conta-se que às vezes, a gota era encontrada cedo, outras vezes, apenas ao amanhecer do sábado. O clima era tenso. Eis que fogos rasgavam o céu anunciando que a gota havia sido encontrada. Festa. O Sábado, aleluia, era alegria... Comida liberada, limpeza liberada. Até um doce, delícia, era bem vindo!

Pergunto-me como era possível aparecer uma gota de sangue na Bíblia de todos os padres e, o quão tenso era sair procurando, procurando...

Chegou Domingo... Páscoa. Comemorar a ressurreição de Cristo, de tabela, mais um ano sem o mundo acabar.

Não sei se há mais essa de procurar a gota, mas se houver, esperemos que os padres continuem encontrando-as, especialmente na Semana Santa de 2012!

SinaldoLuna"