4 de mai de 2010

Preta como Café


Na padaria, que sempre servia de ponto de encontro matinal para aqueles sempre atrasados para o trabalho, dentre os costumeiros fregueses, havia uma senhora que era contraste. Ela não trabalhava, não tinha nenhum lugar para ir logo cedo, não havia ninguém que a deixasse lá, ninguém a conhecia (mas ela conhecia a todos), nem mesmo seu nome, mas sempre tomava o café na padaria, chegava antes de todos e sabia o nome de todos.

Muitas vezes quando Miguel, o funcionário que abria o estabelecimento, chegava as quatro e pouco da manhã, a senhora já apontava na esquina, vindo a lentos passos e cara carrancuda.

Sentada, pedia sempre:

- Café preto que nem você Miguel!
- Eu sou moreno. Miguel sempre respondia.
- Então é pra botar leite, incompetência!

Ela bebia devagar e logo vinha o resto da clientela:

- Ihh, a desgraça já chegou, não tem vergonha de salvar bandido e sentar aqui com gente de bem?

Ela sempre reclamava da presença do outro Miguel, o Advogado, que não se importava com os comentários ásperos da senhora.

- Eu já lhe expliquei, eu trabalho na vara da família.
- Como se alguém de família precisasse de Advogado, você salva é ladrão!


Junto com o Miguel de terno, vinha Makaro, Japonês, conhecido como o Rei dos eletrônicos na região, esse sim, detestava a velha, já tinha falado com o Seu Rodrigues muitas vezes sobre a tal senhora:
- Essa mulher não deixa ninguém comer em paz Seu Rodrigues, faça alguma coisa!

– Mas Makaro, você quer que eu proíba a entrada de uma idosa na minha padaria? Makaro não tinha outra padaria pra comer, não por perto.
- Esses “olho puxado” que vem tomar o emprego dos brasileiros, Castelo Branco não deixava isso acontecer, aquilo que era presidente! Sempre com a voz falhando, entre uma palavra e outra, mas mantinha o tom de reclamação.
- Me vê umas duas empadinhas dessas de frango com esse queijo postiço negrinho.
- É catupiry, catupiry!
Miguel não tinha mais paciência pra explicar.

A última da turma sempre era Mariana, talvez para evitar o Miguel Advogado, eles foram noivos, se conheceram ali mesmo na padaria.

-Bom dia. Mariana era sempre simpática.
-Bom dia, pobrezinha, deixa eu pagar o café pra você hoje? Eu te admiro Mariana, levou tanto chifre desse ajudante de ladrão, mesmo assim continua firme e forte.
- Não precisa pagar nada, dona. Eu posso pagar meu próprio café da manhã.
- Isso mesmo minha filha, mostre pra ele que você não precisa de homem nenhum!


Depois de distribuir toda sua simpatia, ela sempre se levantava, dava um beijo em Mariana, e saia, lentamente, e gritava sempre da porta:
-Dia 10 a gente acerta. negrinho. Você já sabe! Acenando.

- Graças a Deus essa velha foi embora!
Makaro era sempre o primeiro a agradecer pela saída dela.
-Ela é inconveniente, mas é só uma velha. Mariana diz enquanto bebe o café.
- Você diz isso, por que ela não pede “Um café preto como você”. Miguel imitando-a, tirando risadas de todos, até do Seu Rodrigues que chegava na hora.

Cada um tomou o seu destino naquele dia. No outro eles chegaram lá como sempre, mas a velha não estava lá, nem no segundo dia após aquilo. No terceiro dia Makaro tocou no assunto:
- Cadê a velha?
Todos negaram com a cabeça.

Dia 10, e nada dela aparecer. Seu Rodrigues mandou Miguel cobrar a dívida. Chegou à casa dela, era mais longe do que ele imaginava, terrenos baldios em volta, sentiu um mal cheiro ao chegar na porta, achou que era o terreno ao lado, a porta estava destrancada, entrou, e na sala, estava a velha, preta como o café, apodrecendo no sofá, com a TV ligada. Ligou para polícia, sentiu remorso, ninguém apareceu no velório. Eram só o ajudante de ladrão, o “olho puxado” e a pobre sofredora abraçada com o rapaz preto como café com leite.

...TALVEZ ISSO SEJA AMIZADE!

PauloFilipe"