2 de mai de 2011

O buraco é mais embaixo

Um recente posicionamento adotado pelo Secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, tem gerado polêmica e o termo “forró de plástico” tornou-se pauta em qualquer ambiente.


A polêmica teve início quando o secretário e músico afirmou que o Governo do Estado não apoiaria bandas de “forró de plástico” nas festividades juninas, a exemplo do “Maior São João do Mundo, em Campina Grande. Chico César se referiu a atrações como Aviões do Forró e Garota Safada, que são sucesso em vendagens e arrastam multidões em seus shows.

Eis que começaram a surgir críticas acerca do que muitos defenderam como “preconceito ao novo estilo de fazer forró” e o secretário buscou esclarecer os fatos, dizendo que os artistas locais e que valorizam a cultura regional é que devem ser pagos com o dinheiro público. "Não faz muito tempo, vaiaram Sivuca em festa junina paga com dinheiro público aqui na Paraíba porque ele, já velhinho, tocava sanfona em vez de teclado e não tinha moças seminuas dançando em seu palco", escreveu. Para ele, quem quiser ver isso, deve pagar e não o Governo.

O forró, nos moldes que ficou conhecido na cultura popular, passou a virar fenômeno na década de 50, após o músico Luiz Gonzaga fazer suas primeiras gravações. Partindo de nossa região para a construção de Brasília, nordestinos fizeram o forró espalhar-se por todo o Brasil e Luiz Gonzaga tornou-se consagrado... O nosso “Rei do Baião”.

Daquele momento até hoje, o conjunto musical tradicionalmente composto de um sanfoneiro, um zabumbeiro e um tocador de triângulo, sofreu alterações, “metamorfoseou-se”. O triângulo e o zabumba viraram peças opcionais, passou a haver a utilização de elementos eletrônicos, como o teclado, bateria, o contrabaixo e a guitarra elétrica. Indiscutivelmente, o som mudou... E as mudanças não ficaram apenas por ai.

Se a formação dos grupos de forró eram organizadas, tradicionalmente, em trio e com um vocalista sanfoneiro, tendo nomes consagrados como Luiz Gonzaga, hoje esses grupos tem mais membros, mais vocalistas. Era a década de 90 trazendo bandas de forró como Mastruz com Leite, Cavalo de Pau e Mel com Terra que, com letras falando de amor e casos do cotidiano, aqueceram o mercado da música e fizeram a juventude vibrar, lotar casas de espetáculos.

Vivenciei esse processo de surgimento do que passou a ser chamado “forró eletrônico” e gostava muito desse “novo” gênero. Minha infância foi ao som de Mastruz com Leite, Cavalo de Pau, Limão com Mel e tantas outras. Ouvia muito e participei de muitos eventos com ele sendo a principal atração. Porém, jamais imaginei que a situação ficaria tão constrangedora, tão estapafúrdia que eu passaria a não mais ouvi-lo, não mais dar crédito algum e, mesmo se ainda gostasse, como eu poderia ouvir um álbum inteiro do gênero na presença de meus pais ou avós? Não dá, né!?

Até a primeira metade dos anos 2000 ainda dava para ouvir tranquilamente. Foi ai que aconteceu mais outra mudança no forró... Se a princípio as letras traziam a simplicidade do cotidiano nordestino, passaram pelas felicidades e decepções do amor, agora a temática tem um novo elemento: “Carpe Diem Putamente”. Não que “amor” tenha sido excluído completamente, mas a discrepância é notória... Ficou tudo mais encaixado com as mulheres seminuas que servem de adereço nos palcos.

Nesse contexto, novas bandas surgiam e o grau de influência que iam exercendo sobre o público fizeram com que mais e mais artistas se adequassem aos seus padrões. Na linha do que foi o divisor de águas, cito o exemplo de Cavaleiros do Forró, que eu gostava. A banda surgiu em meados dessa “transição” e no início tinha apenas um ou duas músicas que eu deixava de lado, mas Cavaleiros, apesar dos inúmeras pontos positivos que trouxe, como recordes de público, gravações de DVD em estádio de futebol e praia com mega estrutura de palco, foi uma banda que rapidamente sucumbiu aos novos elementos das letras do forró eletrônico, juntando-se ao novo expoente do gênero musical. Eis que podemos criar uma linha com os pontos dessas mudanças, se considerarmos tudo como forró: Luiz Gonzaga – Mastruz com Leite – Aviões do Forró.

Esta nova fase marca o meu desapego em eventos do gênero, mais que isso, não o ouço. Já foi a época em que o forró eletrônico foi marcado por um hino chamado “Saga de um vaqueiro” ou pelas canções apaixonadas de Mastruz com Leite e Limão com Mel. A “lei” agora é mandar consumir o máximo de álcool que puder, exibir-se o máximo que puder, “pegar” o máximo de mulheres que puder... “Pegar e não se apegar”, louvação à arruaça e tantos outros “ensinamentos” que prefiro não reproduzir. Esse pequeno trecho pareceu puritanos demais? Desculpa.

Há muito tempo, tinha a ideia de escrever sobre o forró e essa polêmica em torno de Chico César serviu-me de mola. Em breve, tratarei outros tópicos, como, por exemplo, a utilização de versões de músicas internacionais, mas voltemos ao ponto inicial...

Após as palavras do secretário de cultura, basicamente duas teorias contrárias às suas declarações tomaram forma: uma, que já foi citada, trata do “preconceito” para com as mudanças do estilo e a outra, mais sensata, questiona a autoridade do Governo em decidir o que o povo deve ou não ouvir. Pois bem, esse tópico merece maior destaque e, por consequência, responderá ao meu ligeiro ato de repúdio às declarações de que a atitude de Chico César seria preconceituosa.

Sou completamente a favor de o Governo não patrocinar essas bandas. Não pelo fato, exclusivo, de manutenção à cultura nordestina. Essas bandas também estão inseridas nesse contexto, por mais que distorcidas. O que me faz ser contra o patrocínio é que, a meu ver, seria contraditório o Estado dar apoio ao incentivo às práticas que são paradoxais perante algumas de suas leis.

De forma alguma estou generalizando todas as bandas de forró eletrônico ou dizendo que todas as letras tem esse caráter. Dos grandes nomes no cenário nacional, Limão com Mel e a paraibana Magníficos, ao que me consta, não sucumbiram a esses novos elementos... Muito obrigado!

Também não estou sendo a favor de uma censura, que poderia ser aplicada ao “você será contratado, mas não toque essa música, nem aquela outra, nem aquela, aquela também não e, se puder, tirar aquela também...” Ora, os shows sairiam totalmente esfacelados! O que sobraria? Ah, com raríssimas exceções, sobrariam versões de músicas internacionais... Mas isso é outra conversa.

Para não me alongar mais ou ficar barrando assuntos futuros, vamos citar exemplos do que eu chamaria de contradição por parte do Estado...

É contradição para mim um Estado que tem a Lei Seca e faz campanhas expondo os malefícios do álcool pagar para a população ouvir músicas que possuem versos assim:

“Eu preciso de você
Só você me faz sorrir
E quando você está do meu lado
Eu me sinto mais feliz

Você é meu grande amor
Minha noite de luar
Eu preciso te dizer que sem
Você eu não sei ficar

Olha cachaça
Cachaça, cachaça eu te amo
Cachaça, cachaça, cachaça eu te adoro
Cachaça, cachaça você é meu vicio
Preciso te dizer que sem te eu não vivo”
(Garota Safada)


“Eu to de pajero novo
Resolvi fazer zueira
Vou sair beber cachaça
E vou cair na bagaceira”
(Duquinha)


“Eu quero que tudo se acabe
Mas eu não paro de beber”
(Forró Pegado)


É contradição para mim um Estado que tem a Lei Maria da Penha e faz campanhas de incentivo ao respeito pelo sexo feminino pagar para a população ouvir músicas que possuem versos assim:

"Chegando em casa
Vou brigar com a mulher
Encher o carro de quenga
E sair pro cabaré”
(Duquinha)


“Empura Whisky Nela
Empura Whisky Nela
Empura Whisky Nela
Que ela beba
ela libera”
(Forró dos Play’s)


“Olha esse papo de carinho comigo não rola não
Homem tem que ser safado me domar com a sua mão
Tem que faltar com respeito e me amar no chão
Se não puxar no meu cabelo, amor não rola não.

E tem que tacar na parede me chamar de lagartixa,
Me chama de pneu e me da uma calibrada
Me jogar no chão como se eu fosse um tapete
Sou mulher indomada só aprendo no cacete.

Não caio mais nesse negócio de amorzinho
Beijinho, carinho de me dar paixão
Eu quero um tarado que dê em mim o dia inteiro
Que me ame no banheiro e que me taque a mão.

Tacar a mão, Tacar a mão, Tacar a mão,
Me taca na parede me amar no chão,
Tacar a mão, Tacar a mão, Tacar a mão,
Me taca na parede e me amar no chão”
(Mulher Chorona)

“Mas se o dinheiro tá na mão
A calcinha tá no chão
Dinheiro não viu...
Calcinha subiu”
(Caviar com Rapadura)


Há muitos outros exemplos que poderei trazer em breve, talvez até numa postagem exclusiva para isso, mas acredito que esses já possam ilustrar o que foi dito.

Como um Estado pode pagar com dinheiro público mensagens que possam levar às práticas que infrinjam algumas de suas próprias leis?

OBS.: Se houver algum problema quanto ao nome do artista ao final do trecho da letra citado é porque outra característica desse “forró eletrônico Carpe Diem Putamente” é que todos cantam a mesma coisa e do mesmo jeito... Mas isso também será outra conversa!

SinaldoLuna"