21 de mar de 2013

A maldição do ENEM


O ENEM sofre de alguma maldição digna daquela que Marco Feliciano diz acometer o continente africano. É o que parece.

Desde o seu nascimento, anualmente assistimos, e parece que só assistimos mesmo, os risíveis, ou não, escândalos envolvendo o Exame que agora serve de banquete para o Governo Federal dizer que oferece as melhores e maiores oportunidades de inserção no ensino superior brasileiro.

Depois de tantos episódios de roubo e comercialização de provas e gabaritos, em 2012 parecia que tudo estava indo bem. E, de fato, não houve tais escândalos no último exame aplicado. Por mais nocivos que sejam esses atos de corrupção, o último ENEM mostrou, finalmente, o que muita gente, especialmente a ala e militância governistas, teimava em manter uma venda completamente opaca nos olhos, ou simplesmente ignorava.

Talvez, a esses governistas, defensores ferrenhos do "Lulo-Dilmismo", o roubo de provas, gabaritos e afins não eram culpa do Inep/MEC. A responsabilidade era da transportadora, da empresa de elaboração das provas e blá, blá, blá. O MEC sempre uma vítima da grandeza de um país continental e o Governo Petista sempre a vítima crucificada da imprensa nacional.

Sobre a relação imprensa X PT, vimos dias após a aplicação de ENEM inúmeros artigos e notícias criticando o tema da redação. Dessa vez, sem aqueles recorrentes escândalos de suspeita de corrupção, é claro que a militância governista não poderia tecer outro comentário que não fosse: “A imprensa critica o tema da redação porque não tem o que falar. O ENEM esse ano não teve nenhum escândalo. Ficam inventando qualquer coisa pra criticar o Governo.”

A imprensa não é dona da verdade e vez ou outra faz alguma matéria “maldosa” com esse cunho do discurso governista, mas estivemos diante, mais uma vez, de uma queimação de língua da militância petista. Para um grupo que queimou a língua teimando em dizer que o Mensalão nunca existiu, e ainda insistem mesmo após a confirmação do STF, queimar a língua de novo não seria um problema tão grande assim.

Ultrapassando as barreiras do tema da redação, amplamente criticado pela imprensa, o ENEM 2012 fica marcado como avacalhação total de uma prova que, em tese, deve marcar o ingresso de uma nova fase na vida do jovem, um dos momentos mais importantes de sua existência.

Tudo bem que o futebol é marca registrada do Brasil e já estamos vivendo ares da Copa 2014. Tudo bem que vida de estudante não é fácil e muitas vezes só temos tempo pra preparar um miojo como alimentação.

Num primeiro momento, é difícil não rir da colocação de um hino de futebol e receita de macarrão instantâneo na redação de um concurso vestibular. Mas só num primeiro momento mesmo.  É vergonhoso e revoltante.

Esses últimos episódios são apenas mais alguns exemplos das “operações tapa-buraco” oferecidas pelo Governo Federal, que só se importa, e é o necessário, mostrar grandiosos números à massa brasileira.... “Pibão grandão”, milhares de jovens chegando ao ensino superior, milhares de famílias sustentadas pelos bolsa miséria da vida.

Quantidade, principalmente de maquiagem, a gente sabe que o Governo do PT é mestre em expor, mas a qualidade do ensino muita gente só se preocupa, ou ainda não, em episódios como esses do ENEM. A preocupação com a qualidade do ensino público por parte do governo talvez seja representada pelos meses em que quase todas as Universidades Federais do Brasil estiveram em greve.

A qualidade do aluno nas salas de aula das universidades é o que menos importa. Não importa se numa determinada sala de aula terão alunos escrevendo “trousse” e outros escrevendo “trouxe”. O que importa é dizer que centenas de novos alunos ali tem acesso ao ensino superior. O professor é que se “exploda” pra “nivelar” toda a classe ou devolver o aluno à sociedade com o mesmo problema de português. Se isso acontecer e não havendo sucesso no mercado de trabalho, a culpa é do professor e da universidade que não ensinaram corretamente uma lição de nível fundamental. Ah, o ensino fundamental... Esse carece ainda mais de atenção do governo, mas não mudemos o foco.

A piada do ENEM preocupa não só pelos alunos com graves problemas linguísticos que chegam às universidades, mas ainda mais pelos capacitados que ficam de fora. Com certeza, muita gente que enxerga bem, leva e traz as coisas com cautela e tem discernimento razoável não estarão iniciando na vida acadêmica por conta da irresponsabilidade dos corretores da redação e da má administração de um Ministério de um governo preocupado apenas com quantidade.

Será que mais uma vez a militância governista vai por a culpa apenas nos corretores?! Será que não está na hora de reconhecer as inúmeras falhas do exame, reconhecer a gravidade da piada generalizada que virou o ENEM?!

Talvez eu esteja errado e, mais uma vez, a ala governista está certa. É tudo culpa da direita e mídia golpistas. Não existe problema algum com o ENEM. Sim, eu posso estar errado.
Por enquanto, vou assistindo cotidianamente o Governo do PT perdendo os sentidos: queimando a língua em dizer que tudo é culpa da imprensa e permanecendo de olhos fechados a esses escândalos.

Corroborando com uma charge que vi esses dias, se o Brasil se preocupasse mesmo com a educação, Haddad, grande comandante do ENEM por diversos anos, não seria Prefeito de São Paulo.